13 agosto 2008

38 special


Vem comigo, vem dar este tiro no escuro, tu podes ajudar-me a ter a emoção que eu sei que a vida pode ter.
Que tem.
Vem, prometo que só te farei dar tiros certeiros, directos aos alvos que são os teus preferidos, as minhas mãos hábeis deixarão que sejas a arma fatal que sabes que podes ser.
Que és.
Que no fundo desse coldre não te fazes ouvir, o teu poder de fogo desaparece, num papel de arma de reserva, não foi para isso que te criaram, não foi assim que passaste os primeiros anos da tua existência. E tu nem sabes ser assim.
Vem, dá este tiro no escuro. Que com as faíscas do disparo se fará luz, fazendo com que os que vêm depois deixem de ser no escuro, nem será necessário gritar mais "fogo!" para que tudo esteja visível. Dá este tiro, sem medo que saia por uma qualquer culatra não visível, que pior que o medo do não ser é a certeza do saber como se é. E disso sei eu.

Vem. Enquanto há luz deste lado.



Expressão geralmente utilizada para designar um tipo de revólver, o "38 Special" é uma munição com aro, de fogo central, projectada pela Smith & Wesson. É mais utilizada em revolveres apesar de existirem pistolas que usam este cartucho. O 38 Special foi o calibre padrão da maioria das forças policiais nos Estados Unidos da década de 1920 até a de 1980.
(designa-se "38" pelo diâmetro aproximado de 0.38 polegadas)

12 agosto 2008


Talvez seja esta a dieta que poupa horas de esforço.

10 agosto 2008

no pain...

A Alemanha do final do século XIX produziu dois indivíduos que muito admiro. Virtude do trabalho de pesquisa que efectuaram, consigo nos dias que correm evitar sessões diárias semelhantes à que agora terminei.
Na verdade, o esforço necessário à manutenção (termo simpático e estimulador da auto-estima que pode e deve ser substituído por recuperação) da forma física efectuado através do pedalar de uma bicicleta, para além de doloroso, é visivelmente moroso - comprovado pelo facto de estes 20 minutos terem resultado no reactivar de quase todas as glândulas sudoríferas, há longo adormecidas, excepto aquelas situadas na zona abdominal que, seguramente envergonhadas pela excessiva presença de tecido adiposo nas imediações, abstiveram-se de me dar a satisfação de produzir uma gota que fosse.
Sendo early days, não será esta ausência que irá demover-me da tentar nova e mais prolongada proeza da mesma natureza, arrojando-me dessa vez, para além do que promete a força humana, a ultrapassar o fim da rua e ficar pelo menos a dois quarteirões de distância.
Tudo isto usando apenas meios próprios e esquecendo por um instante o génio das invenções dos tios Otto e Diesel.

08 agosto 2008

o meu melhor amigo

Recentemente aconselharam-me um teste para confirmar quem gosta realmente de nós. Trata-se de uma experiência relativamente simples e de resultados absolutamente infalíveis.
Em momentos distintos, colocar o cão e a mulher (namorada, amiga, amante, usar a classificação mais apropriada a cada um) na mala do carro; esperar uma hora e deixá-los sair.
Depois desse período na bagageira, supostamente apenas um deles vai estar verdadeiramente contente por nos ver. Tentem: garanto que poderão obter resultados absolutamente surpreendentes e inesperados.
Trust me, I know what I'm on about!

06 agosto 2008

na verdade...

... algumas verdades existem.
Ainda que possa ter mantido alguns (certamente que poucos) na
dúvida, também fui dando algumas pistas sobre os resultados do investimento que tenho vindo a fazer ao longo de muitos anos.
Motivado pelas razões mais fúteis que possam ser consideradas, naturalmente relacionadas com a estética, decidi que o rumo dos acontecimentos vai ser alterado.
De qualquer modo, os benefícios colaterais não são de desprezar, já que a doença que agora me afecta - sim, a obesidade é considerada como tal - poderá fazer reincidir uma
outra que me trouxe alguma preocupação, para além de agravar outras condições presentes, como uma preserverante roncopatia, indissociável da eterna apneia.

De qualquer modo, vai ser um dos mais longos caminhos. Talvez até um caminho sem fim...





Obesidade: s.f., qualidade de obeso; estado patológico caracterizado pelo desenvolvimento exagerado do tecido adiposo; gordura excessiva com proeminência do ventre.

02 agosto 2008

story - part 11

Walk the lonely street of dreams






Goin' down the only road I've ever known

esperar

Lisboa, anos 30 do século XX.
Num eléctrico lotado, um cavalheiro vislumbra uma senhora de pé, sem lugar. De imediato, levanta-se e oferece o seu lugar à senhora, provavelmente erguendo levemente o chapéu. A senhora sorri e agradece.
Passados largos instantes, ao estranhar o facto de a senhora permanecer de pé, o cavalheiro inquire-a finalmente:
- A senhora não quer sentar-se?
- Sim, muito obrigado: estou só à espera que o assento arrefeça...
- Ah, muito bem - responde o cavalheiro - Então, se não se importa, enquanto a senhora espera eu vou-me sentando.


Episódio contado como verídico por um excelente e credível contador de histórias.

01 agosto 2008

the day after

Acordei. Era tarde, devia despachar-me para ir trabalhar e tentar chegar a uma hora decente. Ainda assim, o olfacto fez-me permanecer parado durante mais uns minutos, a recordar os deliciosos momentos da véspera.
Levantei-me lentamente, como faço sempre, para cumprir a rotina da barba e do duche. As paredes tinham um aspecto diferente, aliás, tudo parecia diferente: todo o local tinha sido alterado pela tua presença, a memória dela fazia com que tudo me parecesse novo. Melhor.
Sem pressas, arranjei-me e saí. A manhã estava bonita, soalheira sem demasiado calor, não fazia sentido correr para o trabalho sem primeiro encher os sentidos com o que a manhã oferecia. Demorei-me a tomar um café, comprei biscoitos para trazer para o escritório, quem comigo trabalha tinha que compartilhar o meu estado de espírito – mesmo sem saber a razão.

Todos os dias a vida se torna mais complexa, de cada vez que vivo uma nova experiência aumentam os elementos para decidir sobre a forma ideal, de entre todos aqueles constantes da demasiado extensa base de dados. Alguns dos dados recolhidos facilitam francamente a vida, constituindo experiências negativas, a não repetir, servem-me para ficar com a certeza do que não quero.
Ontem, serviu para complicar, parecia ser definitivamente o que eu quero; é, definitivamente, o que eu não posso ter. Por agora.

Sem esperança, mas à espera; sem possibilidade de presente, mas com a promessa de futuro. De que forma? Da que conseguir… porque quero. Muito.

31 julho 2008

missão

Em 2002, o National Geographic conseguiu reencontrar o tema de uma das suas mais famosas capas de sempre.
Quem no ocidente, em 1985, viu a fotografia da bela miúda Pashtun, de brilhantes olhos verdes, seguramente pensou que ela poderia transformar-se numa top-model; em vez disso, casou, deu à luz 4 filhos, atravessou anos de guerra e pobreza. O novo retrato de Sharbat Gula, quando ao lado do antigo, torna-se tão poderoso quanto esse: os olhos são dezassete anos mais pálidos, o véu menos colorido, o olhar agora mais preocupado que atrevido, desafiador...




Certamente que, algures na nossa vida, todos vimos uns olhos assim, que nos fitavam, que mereciam mais atenção que aquela que lhes demos. Nunca é demasiado tarde para fazermos a nossa parte e permitir que um olhar destes não esmoreça.

rollercoaster

Há um ano, depois de um Julho estranhamente conturbado, arrumei a nostalgia e a roupa de Verão dentro da mala e fui perder-me com os meus favourite allies. Trouxe de volta laços mais fortes e sorrisos nos lábios dos parceiros de viagem, na primeira experiência de longos trajectos rodoviários e de encontros com pessoas que falam linguagens desconhecidas. E a certeza de que os melhores dias estavam ainda para vir.
Desde então, muita água, da mais fria à mais quente, correu debaixo da proverbial ponte - a mais quente até me fez acreditar que a corrente me poderia levar ao lugar certo. Mas tudo volta ao início, à nauseante e persistente incompetência com que faço a gestão das matérias mais básicas da vida.
Este ano, depois de um Julho calmamente conturbado, faço a mala para me perder de novo com os meus favourite allies. Quero trazer de volta laços mais consolidados e sorrisos pelo menos iguais aos que lhes consegui proporcionar no ano passado, definir estratégias internas que me permitam evitar o rasto de danos que pareço deixar sempre atrás de mim.
E conseguir continuar a acreditar que os melhores dias são sempre os que estão para vir.

28 julho 2008

Perdido e em busca da minha identidade, eis que descubro ser não mais que um ponto de relevo na Serra da Arrábida.

hoje não posso

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
...

Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
...

Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
...

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...



Álvaro de Campos
Pedaços de "Ficções de Interlúdio", 1928