10 maio 2007

contribuições

Recentemente, pedi a uma mão mal cheia de “amigos” cuja escrita admiro que contribuíssem para a criação de conteúdos que eu pudesse usar. No muito breve texto em que a tal apelava, afirmava que na génese do pedido estavam o reconhecimento pela escrita deles e a ausência de inspiração que tantas vezes me atinge – forma soft de reconhecer também que sou mandrião.
Afirmava ainda que o pior que poderia acontecer seria receber na reposta a tal ousado pedido um rotundo “não”. Esta última veio a revelar-se como uma fraca antevisão, uma vez que o pior que efectivamente aconteceu foi ser alvo do total desprezo, nos casos em que nem sequer o mais ou menos justificado “não” veio de volta.

A única resposta afirmativa veio da Thunderlady, cujos conteúdos constam da minha curta e já justificada lista de links – se alguns não aparecem explicados será por serem auto-explicativos, após curta leitura.
Sendo esta uma autora quase compulsiva e pensando eu que a contribuição chegasse com brevidade, a verdade é que tardou umas largas semanas a enviar o contributo – e a espera compensou.
Completamente “out”, já que considero esta contribuição à margem daquilo que dela já li, constitui algo que preenche na íntegra os objectivos do meu apelo: enriquece este meu espaço.
Obrigado.

09 maio 2007

parabéns

Mais um dia de trabalho. Mais um? Não, não mais "um".
Rafael chegou cedo - como em todos os dias. Extremamente pontual na chegada e nunca preocupado com a hora da saída.
A calma dele, aquela calma que fazia com que tivesse sempre um bom desempenho, aquele sorriso tímido que arrancava sempre uma resposta favorável, o modo assertivo de falar... Muitos colegas o invejavam pela proximidade distante que mantinha, sem saberem que não era forçada, era característica do seu feitio. Sem saberem o quanto ele gostaria, secretamente, de ser mais sociável, mais extrovertido, menos calado.

"Mais um dia de trabalho",
pensou Rafael,
"vai ser só mais um dia de trabalho, ninguém se vai lembrar, não terei que fingir. Só espero ter a prenda que quero".

"Parabéns Rafael!"
Gritaram todos os colegas quando ele entrou na sala do café. Seguiram-se os abraços, as pancadinhas nas costas, as piadas
"Hã, mais um ano.. menos juízo, já se sabe"
"Então, a tua gaja? Embrulhou-se só para ti?".

Estava tramado.

"Rafael, então, pá? É só mais um ano, pá, um sorriso é só o que se pede, homem! Parece que vieste para um funeral, caramba!"

Rafael sorriu, forçado. Precisava de um canto para se enfiar, onde pudesse estar sozinho. Casa de banho. Na casa de banho pode sempre estar-se sozinho. Entrou. Escolheu a divisória mais afastada da porta. Sentou-se na sanita, trancou a porta. Pôs os pés para cima. Pegou no portátil e começou a trabalhar. Era escusado. Ia falar ao chefe. Não podia estar assim.

Saiu da casa de banho. Pousou o portátil em cima do balcão, abriu a torneira. O barulho da água acalmava-o. Arregaçou as mangas da camisa, inclinou-se para a bacia, olhando sempre olhos nos olhos no espelho. Olhando-se nos olhos. A si próprio.

"O que andas a fazer, Rafael?"
perguntou-se enquanto mergulhava a cabeça debaixo da água que corria, fria.
"O que andas a fazer?"

Secou-se. Aquela situação andava a arrastar-se há demasiado tempo. Já nem sabia onde estavam.
O que começou com um beijo fugaz na sala das fotocópias havia quase 2 meses tornou-se fogo, queimava, prendia e libertava e ele não sabia como tinham chegado ali. Já não sabia se era por vício. Já não sabia se era por curiosidade. Só sabia que o desejo da carne era insuportável. A necessidade de a ver, falar com ela. A necessidade de a tocar, de a sentir.
Tinha que falar com ela. Porque para ele não passava de carne: ela dava-lhe o melhor sexo que ele alguma vez tinha tido, sem drogas, sem álcool, sem nenhum tipo de subterfúgio. Sexo, bom. Não, bom seria pouco. Sexo muito bom, como nunca tinha pensado que existia. Era apenas isso. O resto não estava programado.
Ele queria uma mulher "normal". Dona de casa. Boa mãe, com valores. Ao mesmo tempo não queria pensar isto, mas para ele era incompatível que ela fosse excelente na cama e boa mãe de família. Ela queria ter duas: a Marta para aquele sexo do outro mundo e uma rapariga que nem precisava ser linda e boazona, bastava que fosse meiga, inteligente e boa dona de casa - como a mãe dele.

Marta abordou-o no corredor, quando ele vinha ainda a secar o pescoço com o toalhete de papel:
"Preciso falar contigo".
Rafael empalideceu. Encostou-se à parede. Não era de rezar, mas rezou. Rezou porque aquilo era apenas sexo. Nem paixão havia. Sexo. Uma queca fabulosa, um cigarro no fim, o banho. O
"Até amanhã, no escritório"
sem um beijo sequer.
"Estou grávida."




Contribuição da Thunderlady, a pedido meu.
Este pedido foi feito a mais eventuais contribuidores. É, até agora, único contributo recebido.

espelhos

Diz a sabedoria popular que conseguimos ver-nos nas costas dos outros. Tendo a concordar.
O que me traz ao teclado, apesar de estreitamente relacionado, é de cariz diferente e fruto de uma meditação subsequente a uma conversa recente com alguém que apenas designarei por pessoa de eleva estatura – elevada para mim, claro, que sou baixo e gordo.

Sem tentar reproduzir de algum modo a dita conversa, há que fazer um preâmbulo de modo a enquadrar melhor a questão.

Considero-me atento, em tudo, particularmente nas conversas que mantenho: tento ouvir para além das palavras, ler para além das linhas, tentar encontrar a causa das palavras ditas e das subentendidas, é uma espécie de jogo que faço comigo mesmo, em que raramente envolvo a outra parte, já que nem sempre essa outra parte estará preparada para a intromissão que este modo de estar representa. Julgo ser medianamente sucedido nesta análise, já que aparentemente consigo, nalgumas circunstâncias, perceber, chegar comprovadamente à essência de quem comigo vai compartilhando ideias e pensamentos.
Enquadramento feito.

Constituiu novidade quase absoluta estar na outra pele: páginas tantas (e tantas páginas), reparei que estavam do outro lado da conversa a conseguir olhar para a tal essência, a ver coisas que estão por cá e que passam frequentemente despercebidas, uma sensação de nudez que provocou um desconforto momentâneo.
Passado esse momento, restou um bem-estar: afinal, era uma pessoa normal quem estava a olhar para mim.

08 maio 2007

espreitar 4

Links: poucos mas bons.

aparentemente...

… eu nunca existi – ou, pelo menos pareço-me com alguém que nunca existiu.
Parecem palavras sem nexo, mas podem até nem ser; é, de facto, uma expressão assexuada, pois não tem género definido – a frase – e, como tal, não tem sexo: ou seja, um comentário
sem nexo nem sexo.
Mas eu até que escrevo, até que leio, até que evito gralhas, passo as frases pelo corrector ortográfico, tento acertar os tempos verbais: será que nunca existi? Talvez.
Talvez tudo o que aqui está tenha sido escrito por uma outra pessoa que não eu, uma pessoa real, aquela que efectivamente escreve e publica matérias sem interesse, que fala por mim das coisas que me irritam, das que me dão prazer, alguém que, por mim e de mim, escreve para todos e para mim. Talvez.
Talvez?
Porra, não, eu existo! Juro...


Obrigado pelo comentário, entendi-o como um verdadeiro elogio :-)

07 maio 2007

i used to live alone before i knew you



a inveja...

... nem sempre é um sentimento negativo.

04 maio 2007

mãe

Hoje sou eu

para quê...

... tentar encontrar uma explicação para tudo o que acontece? Basta aceitar com naturalidade que acontece.
E sorrir.

escrita em dia



03 maio 2007

quem não se sente não é... pois não?

Os conteúdos publicados neste blog são compostos essencialmente por elementos pessoais, ainda que não necessariamente biográficos.
Todos os elementos, mesmo os pessoais ou os biográficos, são ainda assim ficcionais, construídos a partir exagero de realidades, interpretações liberais desta e, ainda, pela total deturpação da mesma, caso tal se mostre conveniente ao melhor fluir do enredo, sendo potencialmente errada qualquer relação que se julgue poder estabelecer entre personagens eventualmente caracterizados nestes conteúdos e personagens da vida real. Traços comuns deverão, por tal, ser entendidos como meras coincidências.

02 maio 2007

geografia

Onde fica Seclin? Como se chamam os habitantes desta localidade?