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23 abril 2010

o átomo a mais que se animou

Sei que não tens culpa – ou antes, sei que alguma hás-de ter, todos temos pecado dentro de nós que deixamos sair a espaços.
Sei que te tenho culpado por coisas que são humanas, por actos banais, por gestos e palavras que tens e tens muito bem. E sei que tenho olhado pouco para mim, que sou também humano nos mesmos actos e nos meus erros, que digo palavras e faço gestos, se não iguais, pelo menos parecidos com os teus, mesmo que diferentes dos teus.
Sei que te tenho exigido coisas que talvez nem sejam exigíveis, afinal somos humanos e humano é errar e ficar aquém da perfeição; e que tenho tido a presunção, a errada presunção, de que erro menos e que estou mais perto dessa perfeição, digo-te que te quero mais igual a mim nessa pretensa perfeição. Sim, eu, que me farto de te dizer que não queiras que eu seja mais igual a ti, porque eu sou mesmo só igual a mim mesmo – e até digo que gosto de ser igual a mim mesmo e que quero continuar a ser. E não tenho o direito.
Podias fazer melhor? Podias, claro, é sempre possível fazer melhor, também eu podia e tantas vezes não faço, ou por não ter visto, ou por não ter pensado melhor, ou por ter pensado mais em mim que em ti; quando, na verdade, talvez tu não pudesses ter feito tão melhor quanto isso, tu que tentas e até fazes tão melhor que a maioria. E, por mais que eu te culpe, não tens culpa de ser como és e de sentir como sentes e de dizer como dizes e de sofrer como sofres – porque eu até sei que sofres.
E depois, no meio das exigências e das culpas, no meio dos ciúmes e das acusações, por entre palavras mal ditas e outras mal ouvidas, chegámos onde estamos e não sabemos sair de onde estamos – até talvez por nem sabermos exactamente onde estamos. Sabemos apenas que queremos sair daqui, mesmo sem sabermos onde fica o ali para onde queremos ir, sem sabermos se nesse ali nos vamos encontrar, se vamos para lá sozinhos ou acompanhados, até porque não sabemos se esse ali fica aqui ao lado, se do outro lado do mundo, se precisamos de passar nuvens de cinza para lá chegar. E depois, no meio de exigências de perfeição, de culpas atribuídas a quem tem apenas culpa de ser pessoa e de agir como tal, imperfeita e atraente, após acusações e invenções, estamos aqui, a saber que queremos sair daqui e a teimar em não sair daqui, porque ao menos aqui tu estás, ao menos aqui eu estou, mesmo que doa ter o medo diário que tu já não estejas, mesmo que assuste ter o receio eterno que eu já tenha deixado de estar.
Este aqui, este estar sem estar, este dever sem ter, este ter sem dever, este aqui é lugar nenhum, é buraco sem fundo onde se cai e de onde se torna difícil sair; neste aqui não podemos mais estar, não podemos mais ficar, é um aqui no qual temos que evitar cair. Mesmo sem saber para onde, deste aqui, qual cântico negro, deste aqui temos que urgentemente fugir.

14 outubro 2008

malas à porta

Hoje tive as malas à porta. As minhas malas à minha porta.
Naturalmente que não pensei no que faria se fosse gaja (embora se fosse certamente tivesse tido quem mas trouxesse para cima, dois andares sem elevador, duas malas e o baixo, até que tinha dado jeito), mas pensei por que raio são só as minhas malas que cá estão, sem companhia.
Pensei em há quanto tempo são só as minhas malas que partem comigo, que regressam comigo, as minhas malas, com a minha roupa e com as minhas coisas; pensei em por que raio de razão não há mais malas para trazer com as minhas, mais roupa (mais que a minha...) para trazer misturada com a minha; pensei no que está certo e no que está errado, no que devemos ou não ter e procurar ter na vida, no que devemos ou não trazer na bagagem. Pensei, também por causa das horas e dos fusos, que não me deixaram dormir, que mereço ter mais malas para trazer para cima, o exercício faz-me bem e é mais um ponto a meu favor, ser gentil e carregar com elas; que, mais que merecer, preciso ter mais bagagem para completar a minha, mais malas para colocar naquelas prateleiras vazias que estão para ali.
As minhas prateleiras vazias.
As que eu mandei fazer a mais, que eu sei que o meu espaço nunca vai ser totalmente meu se continuar a ser só meu; o espaço que eu sei que um dia vai faltar, entre sapatos e casacos e mais sapatos, aqueles que têm o número certo. Um dia...
Eu espero. Tu sabes que eu espero.

26 setembro 2008

coisas bonitas

Os teus olhos; a cor dos teus olhos, o brilho que eles mostram ao olhar para mim.
A tua boca, quando sorri; os teus braços, que se eriçam ao meu toque, à minha palavra.
O teu sorriso, que te ilumina o rosto, que ilumina o meu rosto e a minha alma.
As tuas mãos, a puxar o cabelo para trás, para cima; o teu cabelo, que me bate na cara; o teu peito, que fica ali, tão perto do meu beijo. As tuas pernas, que se abraçam a mim, que me pedem para te ter; o teu corpo, que geme quando eu te tenho, que se contorce e me pede para te ter mais. Os teus olhos; a cor e o brilho dos teus olhos.
Tu.

29 agosto 2008

the hardest part

Ana acordou com o despertador faltavam um quarto para as oito.
Soltou um pequeno gemido de preguiça, esticou os braços e olhou para o lado. Sorriu ao lembrar-se que aquela não era a cama dela: era daquele homem velho que a olhava com uns olhos tranquilos e sorridentes e lhe dizia com o olhar o quanto gostava de a ver ali. De a ter ali.
Ana estava a acordar de uma noite especial - muito especial: tinha sido a primeira noite dela. Olhou para ele uma vez mais, continuando sem entender por que razão estava ali com ele: com aquele homem. Não era ele com quem ela tinha sonhado, nem com alguém parecido, sequer, ele estava longe de ser o personagem perfeito do filme de amor que a Ana tinha realizado para a vida dela. No entanto, estava ali, radiante por estar com ele, que a conseguia fazer feliz; que a fazia voltar acreditar que é possível ser-se feliz. "Que raio... como é possível... este é o homem errado...".
Não se levantaram sem antes terem repetido os gestos que se tinham prolongado pela madrugada. Abraçaram-se uma vez mais, devagar, sussurrando palavras de amor ao ouvido um do outro, fazendo promessas que os dois sabiam que não podiam fazer; mas fizeram-nas, com a certeza de que todas as palavras ditas eram verdadeiras, sentidas, carregadas de paixão. Com a certeza absoluta de que iriam amar-se sempre. Mesmo que não para sempre.
- Passa das nove, Ana, temos que despachar-nos.
- Tomas tu duche primeiro? Deixas-me ficar aqui mais um minuto a fingir que durmo?
Saíram faltavam poucos minutos para as 10, hora a que a Ana tinha que chegar ao trabalho; havia pouco trânsito, não houve dificuldade em percorrer depressa aqueles poucos quilómetros. No carro, nem o som do rádio nem os óculos escuros da Ana o impediram de perceber que ela chorava. Ele alcançou-lhe o rosto com a mão, fazendo-lhe uma pequena mas sentida carícia, enquanto esboçava um sorriso de tristeza: era um momento que ele tinha antecipado, ele sabia que, mais cedo que tarde, a Ana teria que passar por aquele processo. "E eu também... essa é que é a merda toda".
O carro imobilizou-se na rua estreita onde ficava o escritório da Ana. Olharam-se durante uns instantes, que pareceram muito mais curtos que a realidade. Ele quebrou o silêncio:
- Voltas?
- Não sei se volto...
Ele repetiu o sorriso triste de há uns minutos:
- Sabes? Fico satisfeito por me dares essa resposta... é a única que eu sei ser verdadeira...
Beijaram-se apressadamente, para ninguém os ver.
- Ana?
- Sim...?
- Não te esqueças de mim...
- Como é que tu podes imaginar que eu alguma vez poderei esquecer-te?
Ele esperou que ela atravessasse a rua antes de arrancar. O rádio estava desligado, mas ele quase que jurava conseguir ouvir numa qualquer emissora o Chris Martin a cantar "the hardest part was letting go, not taking part..." Um arrepio atravessou-lhe o pescoço: era medo.
Um medo enorme de ter acabado de a perder.

17 janeiro 2008

eu sei...

... Du hast mir keinen Rosengarten versprochen, é verdade.

Mas era "para a semana" e o tempo parece passar muito mais depressa para mim que para ti, eu que olho para o ponteiro dos segundos e tu que te reges pelo calendário.
Será? Ou será que eu ligo mais a estas coisas que tu, que são diferentes as coisas em que pensamos? As coisas que pensamos importantes, urgentes, determinantes?
Não, não é caso de vida ou morte, fear not, que por aqueles dias, há uns meses, eu já cá estava, sem ti, sem sequer saber de ti e da tua vida, e a minha vida já era e acontecia, todos os dias; não, não tem sequer importância que a importância que damos às coisas não seja a mesma, é natural, eu vi olhando daqui, com estes olhos, tu olhaste daí, com esses teus, esses bem mais bonitos que os meus, é verdade, mas mesmo sendo mais bonitos - ou talvez até por serem mais bonitos, não sei - não viram as mesmas coisas com a mesma beleza com que eu as vi.

Mas era "para a semana" e a semana passou e eu, aqui, a olhar para o ponteiro dos segundos (sabes quantos segundos tem uma semana, imaginas, sequer?), eu aqui, a vê-los passar, um a um, esperei por um sinal, esperei por uma mensagem e...
Não, não é caso de vida ou morte, ninguém morre (ainda aqui estou, não estou?), mas alguém não vive como gostaria de viver, alguém tem alguma coisa a menos - uma daquelas coisas a que dou a importância que não faço ideia se tu dás, uma daquelas que me pareceu ser importante também para ti, que me pareceste parecida nalgumas coisas com aquilo que eu sei ser importante para a vida.
Para a minha. Que da tua não sei nada.

Pode ser... para a semana?

25 outubro 2007

espreitar?

Eu sei, isto parece batota - e talvez até seja.
Eu confesso que sou um mandrião, pronto.

03 setembro 2007

território repetido

- Voltei.
- Não voltaste nada.
- Como não? Se te estou a dizer...
- Está bem, voltaste: mas não para aqui, voltaste para de onde nunca saíste.
- ... não estou a entender nada...
- Lembras-te do dia em que te despediste?
- Sim, claro.
- Nesse dia, não foste embora; nesse dia, tiveste a ilusão de ir - ou antes, quiseste ir, pensaste que era o caminho certo; pensaste que foste e eu ajudei a que acreditasses nessa partida. Mas, na realidade, nunca saíste desse local, ficaste sempre aí, a meio de lado nenhum: porque é aí que escolhes estar.
...
- Não me parece que tenhas razão. Eu fui, mesmo: MESMO.
- Foste: cumprir o teu dever. Mas não chegaste a ir.
...
- Não consigo ver as coisas assim... Parece-me que estás a tirar conclusões abusivas e excessivas de uma realidade que já não conheces tão bem como um dia conheceste - como conhecias, antes da minha partida.
- Talvez não conheça, talvez tenhas razão. Certamente que perdi muitos fios a essa meada, a esse rolo emaranhado que és, mas penso nunca ter deixado de conhecer e entender o que está no teu núcleo.
...
- Pensa nisto.
- Está bem, vou pensar.
...
- É verdade, há mais uma coisa que também deves ter em atenção: também perdeste alguns fios a este novelo deste lado.
- Está bem.

28 junho 2007

território árido

- Vou embora. Deixo-te aqui.
- Eu já sabia que ias, percebi há uns dias que tinhas que ir. :-)
- Não te zangas comigo?
- Por que razão haveria eu de me zangar?
- Porque estiveste sempre aqui, ao meu lado, a fazer-me companhia, a guiar-me e agora eu vou embora, deixo-te sozinho…
- Eu vivi sempre sozinho, estou habituado. Sabes, concluo agora que mesmo nos momentos em que não vivi sozinho, fisicamente, estava só, apenas com a ilusão de não o estar. Por isso, vai custar, sim, mas sobrevivo sem problemas, não te preocupes.
…
- Calaste-te?
- Sim. Fico sem saber o que dizer.
- Também não é preciso que digas alguma coisa.
- Sinto que não é justo, para ti, fazeres este caminho todo comigo, preocupado em ajudar e orientar, e agora…
- Novamente, não te preocupes, não estive aqui para não estar sozinho. Fiz-te companhia por ter percebido que precisavas. Estive aqui de um modo egoísta, até, não tens mesmo com que te preocupar.
- Egoísta? Como assim? Eu nunca te dei nada, limitei-me apenas a deixar que me puxasses, que me empurrasses, conforme a ocasião, deixei que me falasses, que me gritasses, ralhasses, enfim, tu sabes. Foste tu quem fez tudo…
- Sim, tudo isso é verdade, fiz isso tudo, é verdade. Mas repara, tu deixaste que eu fizesse tudo isso e tudo isso dá-me prazer, eu gosto da sensação de poder fazer alguma coisa mudar, fazer acontecer, sabes? Preciso até desta sensação: sentir-me importante, sentir-me válido. Por isso, deixaste-me sentir bem, permitiste-me o prazer de fazer coisas que eu adoro fazer. Sim, foi egoísmo. Fiz-te companhia por eu ter percebido que EU precisava.
- Entendo…
- Ainda bem, fico satisfeito.
- Posso descansar, então?
- Claro que podes! E olha…
- Sim...?
- Estás no caminho certo, eu sei.
...
- Vai… agora sei que podes ir sem mim.

25 maio 2007

território solitário

…
- E agora? Estamos aqui há séculos, andamos para trás e para a frente, não saímos do mesmo sítio.
- É verdade. Isto estagnou.
- Estagnou?
- Desculpa, expressão desajustada: bloqueámos parece mais correcto. Não conseguimos sair daqui: desta vez, por mais que eu queira, por mais que fales comigo e me vás dando as pistas que costumo usar para te orientar, não posso, não consigo encontrar o caminho. Acho que me perdi…
-Tu nunca te perdes: tu és tão sereno, como podes ter-te perdido?
- Não te consigo mentir, pois não?
- :-) não, não consegues.
- Eu talvez saiba o caminho – ou antes, eu sei dois caminhos. E nem preciso de tos apontar, sabes tão bem quanto eu que caminhos são esses.
- Sei…
- Pois sabes. Até sabes qual deles mais te atrai.
- Sei…
- Sabes por que é que é esse que mais te atrai?
- …
- Sabes?
- Vais dizer-me?
- Porque só vês a primeira parte do caminho, não sabes o que está para além. No outro, o que menos te atrai, conheces esta primeira parte e conheces o que está para além – conheces a estrada quase toda, as curvas, as subidas e descidas, até conheces de cor os buracos, já sabes desviar-te deles com mestria.
- Tens razão.
- Não me serve de nada, pois não? Nem a ti…
- O quê?
- Ter razão: estou para aqui a falar, já não adianta nada falar, ficas na mesma.
- Não, fala, gosto de te ouvir.
- Mas eu vou calar-me. Acho que este é o momento em que tens que andar por ti, sem ajuda. Caso eu me ponha para aqui a falar mais, acabo por ser eu a decidir por ti e isso não faz sentido algum, não tens que percorrer o caminho que eu julgo ser o melhor para ti, mas o que tu escolheres para ti. Porque é teu, não é meu.
…
- E sim, agora calo-me.

30 abril 2007

quem és?

Quem és tu, tu lá atrás, lá ao fundo?
Quem és, tu que tiveste mais que aquilo que merecias, que tiraste o que não era teu, que roubaste o que nem meu era?
Que mais queres, agora, tanto tempo depois? Que mais tenho que possas querer?
Quem foste?

Quem és tu, sim, tu, aí ao meu lado, atrás de mim, a fugir de mim, a correr para mim?
Quem és tu, que não me deixas ir nem ficar, que não me permites seguir, que me impedes de ser, que consegues controlar quem sou e o que faço?
Quem és, que tiraste tudo o que eu tinha e mais?
Quem és, que ainda fazes de mim o que queres?
Quem julgas que és? Que direito tinhas?
Que direito tens?

Quem és tu, aí atrás de mim, que fizeste de mim o que quiseste, que tiveste tudo o que eu te dei, tudo o que eu tinha para te dar?
Quem és, para levar de mim o melhor que tinha sem dar nada em troca?
Porque não me quiseste?

Quem és, tu que passaste por mim, para julgares poder ter, se sabes que não quero dar?
Quem és, para pensares ter o direito ao que não é teu – é meu, para eu dar a quem quiser?
Quem és, porque falas assim comigo?

Quem és tu, que estás para aí, que me deixas a pensar?
Quem és tu, que nem sabes que estou aqui, que me fazes ter saudades, que fazes inveja, à distância?
Quem és? Quem podes ser?

E tu, aí à frente, mesmo à minha frente, quem és tu?
Sim, tu, tu mesma, estás a ouvir-me, tu, que me fazes pensar?
Sim, tu, que quase me fazes quebrar promessas, questionar valores, tu, que me deixas de cabeça à roda?
Quem és, que queres e não tens, a quem quero e não posso?
Que queres de mim?

Quem és?

24 abril 2007

território proibido

- Já viste até onde me trouxeste?
- Estou a ver. Mas sabes, como te tinha dito, eu guio-me pelas tuas palavras, se viemos até aqui foi por ti. Não te estou a culpar, mas limitei-me a seguir as tuas indicações.
- Pois. Talvez tenhas razão. Se calhar era até aqui que eu queria mesmo vir.
…
- Agora já não está escuro, agora vejo quase tudo. Mas continuo a ter medo, talvez até mais medo que antes, na escuridão.
- Eu sei. E eu também estou com medo. No escuro é fácil, encontrar a luz é o tal desafio; quando chegamos a um local que reconhecemos e sabemos ser perigoso, então sim, tenho medo. Porque sei dos perigos.
…
- E agora?
- Voltas ao mesmo? Vais continuar à espera que seja eu a levar-te, a conduzir-te e a puxar-te para diante?
- Sim. Já me conheces, sabes que eu sou assim.
- Pois… mas não, desculpa, não te posso guiar mais. Agora, que já sabemos onde o caminho vai dar, não quero ser eu o responsável por passares esta fronteira: se a quiseres passar, terás que ser tu a dar o passo, a ir em frente e mostrar que queres ir por aí, que é esse o caminho que escolheste. Acabei de te dizer que fiquei com medo, não foi? Uma das coisas de que mais medo tenho é de sentir a responsabilidade por te levar por um caminho e depois não te saber trazer de volta. De fazer com que te percas. Não, não posso nem devo. Não quero.
- Caramba. Numa situação destas, consegues saber sempre o que dizer. Eu aqui quase em pânico e tu pareces sempre encontrar as palavras certas. Parece que estás de fora, a ver-nos de longe, como se fosse um filme.
- Sim, talvez seja isso. Sabes, já vi este filme, isto é quase um remake, para mim: os personagens eram outros, a época diferente, o cenário também, mas a história quase que nem muda. O máximo que posso dizer-te foi como acabou esse outro filme, o final que teve.
- E qual foi?
- Fazes cada pergunta…
- Esta era fácil!
- Está bem: a história, depois daquele momento, correu mal, durante uns tempos. Eu interpreto essa parte do enredo como uma crise necessária à mudança, o protagonista tinha que partir para outra.
- Só isso…?
- Sim, só. Nunca vi o fim desse filme…

06 março 2007

território desconhecido

- Não vás por aí!
- Por onde queres que vá, então?
- Segue-me, vem atrás de mim, que te parece?
- Não vejo nada, não te posso seguir.
- Sim, isto está escuro. Mas ao escolher este caminho já sabias que ia ser complicado, sem luz. Olha, fazemos assim, dou-te a mão e ajudo-te: deste modo, mesmo que não vejas o caminho, pelo menos não te perdes de mim.
- O que me faz confusão é como consegues saber onde eu estou, no meio desta escuridão toda. E como consegues saber por onde ir.
- Vou confessar-te duas coisas. A primeira é que é são as tuas palavras que me levam até ti, são elas que fazem com que saiba sempre onde estás.
…
- Então?
- Então o quê?
- Disseste que eram duas coisas, só confessaste uma.
- Pois foi.
- Sim, e então? Não vais dizer a outra?
- Não é fácil… mas está bem, eu digo: a segunda, é que eu também não sei por onde ir. A verdade é que também na escolha do caminho eu oriento-me pelas tuas palavras.
- Como?
- Sim, é isso.
- Queres explicar?
- Não sei se sei…
- Tenta!
- Está bem.
…
- Este caminho é novo para mim, nunca tinha vindo por aqui. Preciso que vás falando comigo para eu ter o meu instinto activo, para ter a certeza de que não te estou a levar para onde não queiras ir. Se tropeçares, avisa, não te esqueças; se eu tropeçar, ficas logo a saber, não te preocupes.
- Já te disse que tenho medo do escuro.
- Eu também. Mas eu tenho uma relação esquisita com o medo: enfrento, vou de frente para o que me assusta, convenço-me de que consigo vencer. Aliás, se me convenço disso, já não é medo, passa a ser uma coisa diferente, uma espécie de desafio.
- Gosto de desafios.
- Já reparaste que é a primeira vez que fazes uma afirmação, que não te limitas a fazer uma pergunta? Obrigado, finalmente facilitas-me a vida.
- Pára com isso, não era para agradecer. Nem faço de propósito para estar sempre com perguntas, é uma questão de feitio. E esta afirmação era fácil, acredita: tenho dificuldade em ter a certeza sobre seja o que for, faz parte de mim. Posso… posso fazer outra pergunta?
- Claro!
- Não consigo entender porque insistes em ajudar-me neste caminho…
- Respondo-te de forma muito simples: é a minha natureza. Faz parte de mim.

01 março 2007

desta água...

- Bom dia Júlio – cumprimentou Ricardo ao entrar no café.
- Dr. Ricardo, essa saúde?
O Júlio, agora com mais de 70 anos, recebeu uma educação conservadora que o levou a manter um tratamento deferente para com os clientes mais respeitáveis, tendo progredido apenas de “Menino Ricardo” a “Sr. Alferes”, fixando-se para sempre em “Dr. Ricardo” desde que se soube do diploma.

Ricardo Sequeira, terceiro filho de um conceituado advogado da região, frequentou a Faculdade de Economia, onde se licenciou discretamente em Gestão de Empresas. Começou a carreira profissional na maior indústria transformadora do distrito, onde ao fim de 12 anos chegou a Director dos Serviços Administrativos.
Era uma pessoa de inabalável honestidade, princípio herdado do pai. Esta forte herança paterna acabaria também por confinar o Ricardo a uma carreira discreta: o demasiadamente rigoroso sentido de dever e de respeito pelo status quo que lhe foi transmitido transformou-o numa pessoa inibida. Talvez um outro tipo de vivência na mais tenra idade tivesse permitido uma maior projecção à carreira do Ricardo – pelo menos na empresa onde trabalhou, em que era seguramente o quadro de maior capacidade.

Teve uma vida familiar autónoma de acordo com aquilo que dele era esperado, pelo menos durante os anos em que conseguiu sustentar o casamento, baseado na amizade mais que em qualquer outro tipo de sentimento. Mesmo reconhecendo nele um marido dedicado e um fiel amigo, a mulher acabou por lhe levar parte da vida para outra cidade, argumentando que “não tenho mais vida para isto, lamento Ricardo, ambiciono mais que ter que comer e onde dormir”.
Por mais que “Joana, por favor não vás, eu preciso de ti”, a Joana foi mesmo e a filha única do casal, ainda sem idade para escolher, acompanhou a mãe na viagem. Em rigor, o Ricardo nunca a tal se oporia, por se julgar incapaz de proporcionar à filha uma vida com tanta qualidade quanto a mãe – e por o conformismo fazer parte da natureza dele. A partir desse dia, ele continuou a ser pai dela, mas ela nunca mais foi filha dele.

Tal como ele, os móveis da casa que agora só ele habitava e a roupa que usava diariamente foram envelhecendo e passando de moda, sem nunca haver lugar a qualquer renovação. Na fábrica, se até então o Dr. Sequeira pouco dava nas vistas, agora era quase um fantasma: entrava pontual e silenciosamente às oito e meia e fechava-se no gabinete, de onde raramente saía antes das sete da tarde.
No dia em que a multinacional adquiriu o controlo das acções da fábrica que o empregava, aquele Director de 50 anos tornou-se dispensável, já que “queremos uma empresa moderna, o Sequeira não serve, faz tudo certinho, mas não passa daquilo”.
Servir, até servia, mas ninguém percebeu. Aliás, alguém percebeu: ele mesmo. Mas nem isso o faria mudar.

Há dois meses, encomendaram novo mobiliário para o gabinete do Ricardo, que iria ser usado por um tipo que mal falava português e que “nem trinta anos deve ter, parece um puto”, dizia-se na fábrica. “Coitado do Dr. Sequeira, durante tantos anos foi ele quem andou com isto para a frente e agora mandam-no para casa”.

- Júlio, dá-me a minha Macieira gelada.
- Ó Sr. Dr., são oito e meia da manhã: não prefere que eu lhe tire um galão bem quentinho? Isto vai fazer-lhe mal…
- Júlio, deixa-te de sermões e dá-me a porcaria da Macieira. Conheces-me há muitos anos e já devias saber que de todos os males, este é o único que me faz sentir bem.

08 janeiro 2007

II – nunca se sabe… (still)

Parei à tua porta, destranquei o carro.
Entraste com o teu “Olá” e com o teu sorriso, dando-me um só beijo na face. Era a terceira ou quarta vez que nos víamos este século, com o jantar como motivo central para o encontro. Ou como desculpa. Confiei, como quase sempre, na tua escolha: tornava-me a vida mais fácil e não corria o risco de não te agradar.
Naquela mesa escura – iluminada por toda aquela luz – na esplanada que parecia reservada exclusivamente para nós, não sei de que falámos, tens um modo particular, muito teu de dizer as coisas. De me dizer coisas, mesmo quando não falas. De me cegar com toda aquela luz, que não parava e eu já nem tinha que mentir a cada defesa tua. Eram de certeza mais que sinais, o que eu via e ouvia, e eu quase que sabia…

Cheguei cedo ao escritório, bem mais cedo do que o habitual, bem mais sorridente que o habitual: era um casual month, regra ditada pelo muito calor, ainda bem. Café da máquina, precisava mesmo, acompanhei-o com o último cigarro do maço comprado na véspera, “é só um, não fumo há meses, não vai ser um que me vai fazer mal…”.
Por sorte (ou talvez não), tinha um compromisso que me obrigou a mais de meia hora de carro. O carro seguia devagar mas eu sobrevoava a estrada e, lá em cima, saboreava de novo os cigarros fumados na véspera. A sensação era forte, tanto que não consegui deixar de a compartilhar ao telefone, nem de disfarçar aquela voz embargada, mal me ouviste desse lado. Mas entendeste-me perfeitamente, ouviste-me dizer que já sabia, que tinha a certeza.
Mas o “nunca se sabe” continuava a ser verdade. E continua.

08 setembro 2006

I - nunca se sabe... (for now)

Parei à tua porta, destranquei o carro.
Entraste com um “Olá” quase casual – como se nos tivéssemos visto na véspera – dando-me um só beijo na face. Respondi ao teu “Olá” com um “Olá” surdo, mais tímido e envergonhado que o teu, sem te conseguir olhar, com a estrada como desculpa para essa minha incapacidade momentânea.

A condução do carro era bem mais fácil que a condução da conversa: não sou mau a segurar o volante, foste muito melhor a manusear as palavras.
Lentamente, fui perdendo o medo provocado pela presença da beleza intimidadora, exactamente a mesma de que me lembrava e que conseguia agora ver mesmo sem olhar, e acelerei, acho que até aos 200. Soltando cada vez mais palavras, sorrindo, tal era o prazer que a velocidade dava.

“Importas-te de fazer uns 30 km?”, perguntei.
Percebi que os meus receios eram infundados e que as minhas faculdades estavam intactas, conseguia finalmente acelerar também no discurso. Os 30 km passaram despercebidos, no meio das palavras com que fomos preenchendo os espaços vazios abertos pelo tempo: afinal, tinham sido anos desde o último contacto, desde aqueles breves momentos que deixaram marcas, marcas de que nenhum de nós tinha consciência, mas que estavam lá. Fortes e presentes e que só mesmo o acaso permitiu recuperar.

Concordámos no menu e no vinho, ainda bem que temos gostos semelhantes. Gostas das mãos, eu também, gosto dos pés, tu mais ou menos, do que mais gostei foi dos olhos e de como eles iluminavam, a pequena vela em cima da mesa apagou-se e nem demos por isso. Das faíscas. Que me pareciam sinais,
(mas nunca se sabe, pois não?)
indicativos de que era mesmo a tal fogueira e não apenas uma centelha que ardia por detrás deles.
“Que é que foi?” era a tua linha defensiva contra um olhar que sentias intenso, mas que era apenas reflexo da luz que vinha dos teus olhos. Que vinha, tenho a certeza. Que não parava, e eu só respondia mentindo “Não é nada…”.

De novo ao volante, acedeste ao meu convite para uma bebida, que a noite era uma criança e amanhã era sábado. Pareceu-me ser um sinal
(mas nunca se sabe, pois não?)
de que a memória das marcas antigas tinha sido reavivada por toda aquela luz vinda das faíscas.
Mostrei-te lugares de que gosto, disseste que eram lugares comuns a outras visitas guiadas, mas não eram. Pelo menos vistos àquela luz. Que não parava, e eu continuava a mentir a cada defesa tua: “Não é nada…”.

“Isto está a complicar-se”, não me lembro qual de nós disse. “Louis…”
Sim, podia. Ou, pelo menos, e tal como alguém dizia há mais de meio século, imortalizando a frase, pareceu-me poder vir a ser. Mas nunca se sabe.
Pois não?

10 agosto 2006

fui

Se tens na tua mão o poder para apaziguar esta mágoa,
se tens o que é preciso para sossegar este coração,
porque esperas, porque aguardas, porque me deixas?

Porquê permitir esta sensação de abandono, este desespero,
se podes com um gesto, uma palavra pôr fim ao desassossego,
a este já longo degredo a que me submeto - porque não me deixas?

Deixa-me ficar, diz-me para ficar, mostra-me que queres que fique,
Se não deixa-me ir, sem sentir que estou a fugir, assim não,
Não gosto de fingir que tudo está bem, não consigo, não posso!

02 agosto 2006

vício

Saí do banho.
Enrolei a toalha à volta da cintura.
Acendi um cigarro e olhei-me ao espelho.
(gosto de me ver de toalha à cintura: a toalha esconde a barriga saliente e os ombros, largos, ficam mais evidenciados)
Fui para o quarto, deitei-me
(gosto das camas dos hotéis, maiores que a lá de casa, onde será que as compram?)
e estiquei o braço direito até à mesinha de cabeceira, do outro lado da cama.
Peguei no cinzeiro e no comando da TV.
Documentário? Canal de música? Notícias? Qualquer coisa!
Cortinas bem abertas,
(luz, muita: é fundamental!)
mente e tronco totalmente despidos, recostei-me nas almofadas a apreciar o cigarro e a brincar com os imperfeitos círculos de fumo que ia deitando no ar frio e condicionado do quarto.
“Quatro da tarde… não tenho mesmo juízo”, começava a mente a tentar vestir uma roupagem qualquer…

A campainha a tocar? É cedo!
Apago o cigarro à pressa, ajusto a toalha – não vá cair – e vou até a porta.
- Olá!
- Olá… vens cedo, não te esperava já…
- Ah não…?
- Entra!
Os meus olhos acompanharam-na enquanto entrava no quarto e a porta se fechava sem eu dar por isso: a forma como se movia, como poisava a carteira na cadeira, como se voltava e olhava e sorria para mim eram absolutamente fantásticas. Tal como o eram as formas arredondadas,
(sempre gostei de formas arredondadas)
que os meus olhos iam saboreando e as mãos ainda só adivinhavam. Irresistíveis, como dantes – como sempre.
- E então? Estás bem? Gostas de me ver?
- Sim.
“Sim”? Porra: não conseguia dizer mais?
Nestes momentos
(e com aqueles movimentos)
as palavras ficam sempre presas no pensamento.
Aquele sorriso tentador...
- Algum problema? Já não gostas? Estás arrependido?
As palavras continuavam presas atrás de um qualquer bloqueio. “Claro que gosto, como podia não gostar? Não, nada arrependido de estar aqui, claro que não!”
- Não – foi única coisa que consegui dizer.

Como podia eu dizer aquilo que devia dizer?
Opto pelo caminho da honestidade desnecessária, dizendo o que penso, destruindo um momento que pode bem ser o último? Pelo da desonestidade necessária? Deixando que tudo aconteça e tentando preservar sei lá o quê? Não é mesmo absolutamente necessário ser absolutamente honesto, desta vez e para sempre? Comigo, nem que seja?

Pondero por mais um instante, sem nada conseguir concluir.
Escondo-me atrás de novo cigarro…

A desonestidade, para além de justificada, traz hoje benefícios imediatos.
E que benefícios! E posso sempre concluir amanhã aquilo que devia ter concluído hoje...
Desonestidade desinteressada, altruísta?
Nah, desta vez não – e altruísmo é mesmo conceito apenas bíblico, inexistente na prática, toca a ser egoísta desta vez, no conceito mais carnal, e pensar que “Isto até pode ser que se componha, isto não é um erro”, convicção instantânea e convenientemente adquirida.
Convicção pouco convicta. Convicção, ainda assim.

Saí do banho.
Enrolei a toalha à volta da cintura sem o cuidado de esconder a barriga.
Acendi mais um cigarro
(devia ser o quinto cigarro da tarde, gosto de fumar mas isto está a passar as marcas)
e olhei-me ao espelho, descurando o aspecto mais lisonjeador da minha anatomia.
Fui para o quarto e deitei-me na cama, não reparando que a cinza crescia depressa na ponta do cigarro.
Cortinas bem abertas deixavam entrar o pôr do Sol e a TV emanava um ruído indiferente.
“Merda! Não tenho mesmo juízo…”

Tentar prolongar um sonho pode fazer eternizar um pesadelo.