05 maio 2010

ocasião

Vendo: VW Golf Variant, 2002, A/C, alarme e tal; menos quilómetros que os anos fariam antever;
Vendo: KTM 950 SM, 2006, ventilação automática; roubada só uma vez;
Ofereço: posto de trabalho; ordenado algo acima do mínimo; muita chatice e horário longo;
Pago: a quem fique com ex-mulher e processos judiciais anexos; custo de manutenção elevado.

Favor contactar a partir das 20h.

04 maio 2010

skimming

Domingo liguei.
Era uma obrigação que tinha para cumprir e, afinal, também me compete contribuir para o apaziguamento e tentar a reaproximação.
E liguei. E atendeu-me um gravador, ao qual confiei aliviado a minha mensagem.
Passaram talvez duas horas e a chamada foi devolvida, o cordial agradecimento pela intenção, a intenção cordial de prosseguir com a reaproximação, a sugestão de um novo encontro a matar as… saudades que o tempo cravou nas respectivas almas. Supostamente.
E pronto, obrigação cumprida, sugestão aceite, tinha sido um bom passo no sentido da tal reaproximação que também a mim competia – nem sei bem porquê, afinal não fui eu quem promoveu inicialmente o afastamento, limitei-me a reagir pacifica e quase passivamente. Mas o caminho estava traçado e agora poderíamos avançar, com cuidado, é certo, mas estava aberto o caminho. Supostamente.
Durou menos de 24 horas.
Demorei menos que um dia a descobrir que, nas minhas costas, tudo tinha continuado na mesma, no mesmo tom de desrespeito, na mesma senda de desafio; demorei apenas horas a saber que o desafio e a tentativa de usurpação continuam, com os aliados de ocasião e de conveniência que se lhe juntaram. Supostamente.
Sem surpresas: eu já tinha podido ver as costas de outros.
Afinal, a surpresa tinha sido mesmo domingueira, com as sugestões e as demonstrações de intenção a servirem de cortina de fumo, respostas que seguramente se procuram para poderem ser acumuladas para memória futura, em jeito de construção de capital de queixa. Afinal, normal era mesmo o que nem sequer volvidas vinte horas viria a descobrir – ou melhor, a poder confirmar: o estilo dissimulado, a necessidade de demonstração de poder, vinda de quem nem sequer a capacidade moral detém, quanto mais a formal.
E agora? Agora, nada de novo - ou antes, talvez algo de novo, já que procuram conquistar Roma: fingir fazer como os romanos.
E ficar com certeza que só se estragou uma família.

29 abril 2010

no pillion

23 abril 2010

o átomo a mais que se animou

Sei que não tens culpa – ou antes, sei que alguma hás-de ter, todos temos pecado dentro de nós que deixamos sair a espaços.
Sei que te tenho culpado por coisas que são humanas, por actos banais, por gestos e palavras que tens e tens muito bem. E sei que tenho olhado pouco para mim, que sou também humano nos mesmos actos e nos meus erros, que digo palavras e faço gestos, se não iguais, pelo menos parecidos com os teus, mesmo que diferentes dos teus.
Sei que te tenho exigido coisas que talvez nem sejam exigíveis, afinal somos humanos e humano é errar e ficar aquém da perfeição; e que tenho tido a presunção, a errada presunção, de que erro menos e que estou mais perto dessa perfeição, digo-te que te quero mais igual a mim nessa pretensa perfeição. Sim, eu, que me farto de te dizer que não queiras que eu seja mais igual a ti, porque eu sou mesmo só igual a mim mesmo – e até digo que gosto de ser igual a mim mesmo e que quero continuar a ser. E não tenho o direito.
Podias fazer melhor? Podias, claro, é sempre possível fazer melhor, também eu podia e tantas vezes não faço, ou por não ter visto, ou por não ter pensado melhor, ou por ter pensado mais em mim que em ti; quando, na verdade, talvez tu não pudesses ter feito tão melhor quanto isso, tu que tentas e até fazes tão melhor que a maioria. E, por mais que eu te culpe, não tens culpa de ser como és e de sentir como sentes e de dizer como dizes e de sofrer como sofres – porque eu até sei que sofres.
E depois, no meio das exigências e das culpas, no meio dos ciúmes e das acusações, por entre palavras mal ditas e outras mal ouvidas, chegámos onde estamos e não sabemos sair de onde estamos – até talvez por nem sabermos exactamente onde estamos. Sabemos apenas que queremos sair daqui, mesmo sem sabermos onde fica o ali para onde queremos ir, sem sabermos se nesse ali nos vamos encontrar, se vamos para lá sozinhos ou acompanhados, até porque não sabemos se esse ali fica aqui ao lado, se do outro lado do mundo, se precisamos de passar nuvens de cinza para lá chegar. E depois, no meio de exigências de perfeição, de culpas atribuídas a quem tem apenas culpa de ser pessoa e de agir como tal, imperfeita e atraente, após acusações e invenções, estamos aqui, a saber que queremos sair daqui e a teimar em não sair daqui, porque ao menos aqui tu estás, ao menos aqui eu estou, mesmo que doa ter o medo diário que tu já não estejas, mesmo que assuste ter o receio eterno que eu já tenha deixado de estar.
Este aqui, este estar sem estar, este dever sem ter, este ter sem dever, este aqui é lugar nenhum, é buraco sem fundo onde se cai e de onde se torna difícil sair; neste aqui não podemos mais estar, não podemos mais ficar, é um aqui no qual temos que evitar cair. Mesmo sem saber para onde, deste aqui, qual cântico negro, deste aqui temos que urgentemente fugir.

16 abril 2010

and in the end?

There's nothing new...

25 março 2010

viver no campo

Quando não acordo com as galinhas que quase me rodeiam, são elas que me acordam; por outro lado, eu, as galinhas que tenho por vizinhas (falo daquelas que têm mesmo penas e põem ovos), os patos que as acompanham e quiçá os silenciosos coelhos que com eles convivem, estamos todos rodeados por prédios. Tudo isto a menos de 20 minutos do Marquês.
Sei que não basta analisar a fauna ou a distância ao centro da capital para que possa ser afirmado que se vive no campo, cidade ou subúrbio: no local que refiro, são tantas as variáveis e as aparentes contradições que qualquer classificação facilmente pode ser contestada.
Seja como for, uma característica o torna parecido com um qualquer lugarejo da província (expressão em desuso, verdade, mas a que melhor expressa o conceito), corroborando, nem que seja apenas por isso, o título desta inutilidade que escrevo. Essa característica é o surpreendente conhecimento que muitos têm sobre a vida alheia - a minha e a de quem me rodeia, no caso - e a forma verdadeiramente informada como afirmações se produzem. E compartilham.
Desse modo, sem que eu faça o que seja por isso, informações do género "sabes quem esteve a beber café" e parecidas com "nem imagina quem esteve no outro dia em frente a sua casa" chegam-me com toda a naturalidade. E como o saber não ocupa lugar...





nota: o título surgiu-me da série televisiva com o mesmo nome que eu via algures no início dos anos 70, quando a nossa TV tinha dois canais a duas cores. Da série, Green Acres no original, recordo-me que a história girava em redor de um casal da cidade (Nova Iorque, presumo) que se mudava para o campo, da loira Eva Gabor e do velho tractor do genérico.

24 março 2010

twice shy

Não julgo. Longe de ser insensível ou indiferente ao que se passa à minha volta, mais ou menos perto de mim, analiso inevitavelmente tais acontecimentos; e sobre esses não me compete exercer a censura, pelo que reservo geralmente para mim quaisquer conclusões que deles retire. E essas quaisquer conclusões estão longe de ser um veredicto "bom", ou "mau", pois prefiro designar apenas por características aquilo que é vulgarmente classificado como defeito ou virtude. Até porque, amiúde, esses veredictos são sobre nós mesmos, já que fomos tantas vezes cúmplices desses acontecimentos, seja por participação, por conivência, ou condescendência.

Habituado a que se confunda permissividade com indiferença, tolerância com submissão, respeito com deferência, memória com saudade e até indulgência com neglicência, todos eles quase sinónimos com suaves mas importantes nuances entre si, não me espantaria que, desta vez e uma vez mais, tais conceitos fossem misturados.

E não, nem assim ficaria perto de me zangar com quem faz tais confusões. Preferiria apenas que fosse de outro modo: tudo seria mais simples.

22 março 2010

surdos

Nunca cheguei a perceber qual das partes padecia da crónica falta de audição, ou se ambas; nem sequer se foi essa a doença que os fez sucumbir. Mas foi uma das causas centrais e seguramente a mais visível para uma morte que se fez anunciar ao longo de semanas, dolorosas semanas, em que por mais que gritassem de dor não se conseguiam fazer ouvir. Aliás, conseguiam, a espaços, sempre que o tom de voz baixava (e com ele as guardas), e nesses raros momentos a harmonia que tinham em tempos conhecido voltava a ser uma realidade.

Mas não bastavam, esses raros momentos, e até nessas ocasiões faltava sempre algo mais: provas, confiança, palavras; silêncio, tranquilidade, serenidade. E talvez até um rumo comum - ou uma velocidade igual para chegar a um objectivo, que pôde até ter sido comum, mas que teimou em não o parecer.

17 março 2010

domingo

O Sol impulsionou-me até uma praia na região oeste para um almoço na esplanada.
Mais habituado à utilização de auto-estradas e vias rápidas, para além das agora não tão longas filas suburbanas, impacientei-me com aquele Opel Astra de 2001, irrepreensivelmente limpo e com 17 mil quilómetros reais desde que comprado novo – e a pronto pagamento. Pilotado pelo Sr. Antunes, que se fazia acompanhar pela esposa, a D. Odete, ele de fato e gravata e ela exibindo um impressionante arsenal de jóias, que ainda que de questionável gosto, de indubitável autenticidade, mantinha uma estonteante velocidade de 72 km/h, prudentemente reduzida aos 54 km/h sempre que a menos de seiscentos metros de uma daquelas apertadíssimas curvas – acredito agora naquelas conversas que oiço a espaços em que “o meu Astra faz menos de 6 litros aos 100” e em que “faço todas as revisões na marca” – claro, as duas até agora necessárias.
Sem que tenham sido assim tantos os quilómetros percorridos nestas condições, a verdade é que ultrapassei esta mesma viatura um sem número de vezes, sendo que era umas vezes ocupada pelo Sr. Fernandes e pela D. Graciete, outras pelo Sr. Sequeira e pela D. Arlete – sim, devo ter algum fetiche com todos os nomes acabados em “…ete”, possivelmente uma mulher com esse nome ter-me-á traumatizado algures na minha longínqua infância.
Na realidade, a existência de qualquer um destes condutores não constitui qualquer novidade para mim, seguramente que já me cruzei no passado com eles nalguma estrada deste país. No entanto, falhei em constatar que estes Srs. estão a envelhecer e que os filhos deles cresceram: estão a chegar perto dos 30 e já se casaram. E eu encontrei-os: passeavam no paredão abaixo da esplanada onde almocei, felizes com o novo pincher, mais pequeno que o enrolador da trela. A Tânia, que não cabia em si de contente (nem nas calças de fato de treino, para ser honesto), o Telmo, que mesmo tendo uma pochete preferia segurar o i-phone na mão, juntamente com a chave do carro (não, não vi a marca do carro, mas adivinho um Ibiza).
De regresso a casa e mais uma dúzia de ultrapassagens a outros tantos Srs. Antunes, valeu o almoço, a companhia e um Sporting renascido, qual fénix tardia e inútil.
E eu queixo-me? Devia estar era calado. Get a life!

(as marcas dos carros e os restantes proprietários que me perdoem, quer a publicidade, quer as associações)

19 fevereiro 2010

it´s amazing how much you can see in the dark‏

Sem que sejam meras coincidências, as que digo e as que faço nem sempre são coincidentes.
Por mais que eu aconselhe que não deixem que as de um qualquer asinino lhes chegue, dei por mim a trocar algum do meu escasso e precioso tempo de descanso pela análise de um conjunto de frases ouvidas de bocas terceiras – ou quartas. Mesmo retirando-lhes os pontos que lhes foram acrescentados, reconheço que o intuito do autor das palavras foi cumprido, pois chegaram efectiva e finalmente ao destino e tiveram pelo menos algum do efeito desejado. Digo algum, pois não tão velho quanto isso mas ainda assim muar por escolha, já não são só duas as cantigas que me embalam: antes pelo contrário, despertam-me para uma inútil meditação, que resulta numa quase útil tomada de consciência de determinados porquês – sobre o que serve, sobre quem se serve e sobre quem quer servir.
A verdade? Sei que não existe e sei que nunca a saberei, por mais que ma contem. Por tudo isto, sem qualquer desprezo, ou menosprezo sequer, prefiro seguir o meu próprio conselho e manter-me no escuro – até porque essa tonalidade é sempre bem mais honesta que as promessas cor-de-rosa vindas lá de fora.

31 dezembro 2009

does it get any worse?

Citar Isabel II seria apropriado: este ano esteve próximo de ser horribilis. Se é que não foi mesmo.
Depois do impaciente alemão ter determinado o internamento do paciente, agora efectivamente mais paciente por (ainda) menos consciente, depois das confusões iniciadas pela ausência de valores de quem se apega aos valores, depois dos processos iniciados sobre os primeiros valores, depois de saber que o Natal seria diferente de todos os anteriores, pela ausência e pelas discordâncias, há alguém que na madrugada de 25 decide que quarenta e um anos chegam e deixa tudo suspenso na sala de casa dele - e uma tristeza e incompreensão que passam para cá das fronteiras familiares.
Mas não chegava e o ano velho não acabou suficientemente depressa para quem lutava para sobreviver a uma cirurgia mal sucedida, terminando com um mês de angústia e dando início à revolta contra a injustiça de ver que quem quer ir, pode ir, mas que quem quer ficar nem sempre consegue.
É melhor não celebrar: ainda faltam doze horas.

28 novembro 2009

when the shit hits the fan

... ou será que são luzes que começam a acender lá ao fundo?